Postei aqui há poucos dias atrás a minha decisão de interromper qualquer problema de ordem pessoal com o promotor Dioneles, decisão minha, partida de mim e que achei por sensato tomar. Continuo pensando do mesmo jeito, embora, por dever de ofício e estrito conhecimento de causa, sou obrigado a lembrar aos leitores alguns pequenos esquecimentos do promotor em sua entrevista dada nesta última sexta-feira à rádio palanque.
Não sou advogado. Mas também não sou mais nenhum menino. Em primeiro lugar, ele esqueceu, por exemplo, de lembrar que o relatório das movimentações financeiras de Edésio, fornecido pelo Coaf, em nada sequer robustecem as frágeis provas colhidas pelo MP. Ainda mais que os depósitos foram feitos todos em cheques, de fácil constatação entre emissor e beneficiário. SE houver qualquer relação com o caso dos professores, será fácil constatar, embora tudo não passe, a princípio, de mera especulação.
O promotor não lembrou, também, em sua entrevista, que as duas únicas testemunhas de acusação são dois traficantes pé rapados, tidos em seus meios como armadores e mentirosos, e que são várias as contradições já incorridas pela dupla. Inclusive, um próprio ex-advogado da dupla se diz disposto a ser interrogado em juízo e esclarecer como ele foi convidado a se retirar da delegacia de Eunápolis, após ter chegado lá para soltar seus clientes.
Tal advogado garante, ainda, que as mulheres da dupla foram chamadas pelo delegado Evy, que lhes repassou o telefone do advogado e ex-delegado Ruben Paturi, dizendo que ele seria o único capaz de liberar seus maridos, desde que elas, é claro, dispensassem o tal advogado, o que elas acabaram aceitando. Inclusive, no processo aparece um ofício dirigido pela advogado ao juiz lembrando “que as promessas feitas pelo MP aos seus clientes não estavam sendo cumpridas”. Eu mesmo contatei o advogado Paturi, que confirmou a versão e me falou cobras e lagartos da atuação do promotor e do delegado.
Quem matou?
Até hoje não se sabe, por exemplo, quem foram os autores reais dos crimes. O MP começou com uma tese, logo desmentida pelo jornal, de que os PMs foram infiltrados por Edésio para saquearem a administração pública e que Edésio seria envolvido com o tráfico de drogas. Nada disso restou até hoje provado e o promotor, aparentemente, esqueceu as acusações. Depois, ele acusou que os PMs teriam sido os agenciadores, para, no final, as suas testemunhas garantirem em juízo que os réus foram na verdade os autores dos crimes. Em resumo: não se sabe em qual das teses acreditar. Se na primeira, na segunda ou na terceira.
Sumiço esquisito
O promotor não lembrou também aos ouvintes aonde foi parar, salvo engano, o inquérito policial de nº 101/10 ou 09, inquérito este no qual o delegado Renato Fernandes, de posse de uma ordem judicial, investigava a dupla, inclusive com escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, e que o delegado garante ter entregue pessoalmente ao promotor. Onde está este inquérito e cadê as gravações, senhor promotor?
Ora, se a dupla vinha mesmo sendo investigada há meses pela Polícia Civil e foi presa por ordem judicial, natural seria que as ofertas supostamente recebidas pelos acusadores tivessem sido interceptadas e gravadas ao menos uma vez só? Ademais, por que a dupla de acusadores não foi punida com rigor após a conclusão do inquérito, mesmo tendo afirmado em juízo que comandaria o tráfico de drogas na cidade e o pagamento de propinas aos próprios servidores do Judiciário?
Quer dizer, então, que para o nobre promotor as palavras dos traficantes só valem para incriminar os acusados, sendo eles absolvidos de todos os seus crimes anteriores? Aí, convenhamos, fica difícil dar crédito às acusações de uma maneira geral.
Grampos? Que grampos?
Outra coisa que o promotor esqueceu de falar sobre suas descobertas foi com relação aos grampos telefônicos. Os grampos aconteceram, sim, e só foram descartados pelo juiz porque eles comprometiam diretamente a decisão tomada pelo Dr. Roberto, sobretudo no sentido dele ter autorizado o grampo no telefone do próprio prefeito Abade, o que é ilegal, eis que tal autorização só poderia ser dada pelo Tribunal de Justiça, uma vez que o prefeito detém a prerrogativa do foro especial.
Mas não custava nada, por exemplo, o promotor ter esclarecido aos ouvintes que as tais gravações não passaram de balelas e fogo de palha para satisfazer a uma claque bem decidida a fazer justiça por seus próprios meios e imaginação. Tanto isso é verdade que não existe uma linha sequer – e eu detenho todas as escutas em meu poder – capaz de comprometer ou ao menos de insinuar a participação de qualquer um dos acusados nos crimes.
E o IPM, senhor promotor?
Outro grande lapso de memória do promotor, este creio que até mesmo imperdoável, foi ele ter esquecido e ignorado completamente o resultado do Inquérito Policial Militar realizado rigorosamente pela PM e que excluiu, em alto e bom som, a participação dos PMs nos crimes que lhes foram imputados. Nada, absolutamente uma linha sequer das acusações feitas pelo MP foi confirmada pelas investigações da corporação.
Ah, mas também, vá lá, vai ver que esta polícia militar baiana, a SSP e o governo do Estado são todos uns corruptos mesmos e que Abade os cooptou, como cooptou a mim para defende-lo. Até parece.
Imperdoável também foi não lembrar que as principais testemunhas de defesa dos acusados, no caso o prefeito Abade – que estava num velório no momento dos crimes, na companhia de Rodrigues – e o coronel Maurício – para quem Geraldinho, de serviço, na hora dirigia – jamais despertaram o interesse de ao menos serem ouvidos pelo MP.
Que Justiça é esta que dispensa testemunhos tão importantes para a defesa? E por que o delegado Renato Fernandes foi proibido de falar sobre as investigações que fazia, sendo transferido, às pressas, para o sertão da Bahia, sendo que possuo e-mail enviado por ele dizendo que estou absolutamente certo em minhas convicções e que tudo não passou de uma grande farsa policial?
O senhor quer, seu promotor, eu apresento os documentos e vídeos que possuo. Embora ver se estou inventando alguma coisa ou distorcendo os fatos. Por que até hoje a Polícia Civil da Bahia não me ouviu ou sequer me processou – como o senhor disse que tenho vários processos e inquéritos – para mim ter a oportunidade de mostrar o festival de contradições que o inquérito encerra?
Qual o interesse da polícia baiana em esclarecer o caso? Aliás, o senhor, como os olhos e ouvidos da sociedade, deveria ser o primeiro a exigir que a Polícia Civil desse continuidade às investigações. Quem sabe assim, ao invés de pescar lambaris na curva do rio calmo e frondoso, o senhor pegasse um grande tubarão em alto mar e virasse herói da cidade?
A Polícia Civil está simplesmente descumprindo uma ordem judicial e o promotor assiste a tudo calado, é? E digo mais: sabe quando vão mexer neste inquérito, só mesmo quando mudar a cúpula da Policia Civil ou o governo do Estado. Se não mexeram até hoje não será agora que irão mexer.
Queima de arquivo? Desde quando?
O mesmo esquecimento se dá, por exemplo, na tese de queima de arquivo. Ou será que o nobre promotor ignora que foi prestado um depoimento em juízo, dado pelo primo da testemunha Marcelo Caolho, no qual ele desmente toda esta possibilidade e esclarece, em detalhes, como seu primo mandou matar Pequeno, e depois mandou matar o assassino de Pequeno, o tal Rodrigo Terceiro. Isso pode não estar nos autos e nem estar no mundo jurídico, mas certamente deverá ficar na consciência do promotor.
Tenho certeza de que o promotor, atribulado em suas tarefas, deve ter esquecido este detalhe fundamental no processo. Ora, quem fala é justamente quem esteve presente aos fatos e a sua palavra não tem validade nenhuma, é?
Sem lógica nenhuma
Outro detalhe que passa desapercebido pelo promotor é com relação à autoria dos crimes. Se houve um mandante, por óbvio houveram os executores. Afinal, quem foram eles? Segundo o promotor, foi Pequeno, Rodrigo Terceiro, Danilo e Junior. Já, segundo as duas únicas testemunhas do MP, foram Sandoval, Rodrigues, Caveirinha e Pequeno.
O juiz Roberto preferiu se afastar do caso e pediu transferência para Eunápolis.
Só que Danilo e Junior continuam livres, leves e soltos. Inclusive, o Junior se apresentou em outubro do ano passado ao delegado Evy, em Eunápolis, foi ouvido, passou 30 dias preso e foi liberado sem sequer ter sido ouvido pelo promotor ou por um juiz de Direito. Nem ao menos para convencimento pessoal do Dr. Roberto. Isso sendo ele apontado como um dos autores das mortes dos professores. Ele foi solto pelo juiz e encontra-se em liberdade provisória, sem nunca ter sido ouvido por uma autoridade ao menos mais graduada e interessada em esclarecer o caso.
É dele, por exemplo, o depoimento de que quem mandou matar Pequeno foi seu primo, Marcelo Caolho, por motivos passionais. Ele também garante, a exemplo de Danilo, que Rodrigo Terceiro jamais poderia ter sido contratado por Pequeno para matar os professores, pois ambos eram inimigos declarados e jurados um ao outro de morte. Só isso aí desmonta toda a tese de queima de arquivo.
Pergunto: sou eu que estou inventando isso, ou existe um depoimento prestado em juízo alegando tais fatos?
Pego na mentira
O promotor Dioneles também esqueceu que o tal Marcelo Caolho, que garantiu ter gravado e filmado todos os seus encontros com os PMs, quando apertado pelos advogados de defesa, recuou, tremeu nas bases e disse que havia deletado as imagens do seu computador. Mas a foto que ele teria salvado de Edésio em seu computador, ah, esta sim tem validade como se ouro fosse. Ora se o Direito se deixar levar por tais argumentos não se vê outra utilidade que não seja jogar no lixo da história todos os ensinamentos jurídicos e que vêm sendo aperfeiçoados ao longo da trajetória da humanidade.
Quem foi que disse isso?
Outros esquecimentos no mínimo relevantes por parte do promotor foi a tese de que os professores foram chamados ao sítio e lá recebidos à bala pelos pistoleiros. Não é o que dizem, por exemplo, as testemunhas. Tanto a mãe quanto o irmão de Álvaro falam que levou entre um a três minutos entre o tempo da chegada dos dois educadores e o início dos tiros. Também passou despercebido pelo promotor a declaração feita por uma enfermeira da antiga Clínica Nossa Senhora d ´Ajuda, e que alertou a mãe de Álvaro que seu filho estava com uma mancha roxa enorme na região escrotal, fruto provavelmente de uma briga.
O combativo promotor não investigou também a possibilidade de que Álvaro estaria carregando consigo dinheiro vivo da APLB, uma vez que a associação estava com problemas nos bancos e havia recém-saído de uma administração tumultuada com o professor Keo Portela. A informação que se tem é de que Álvaro estava circulando com dinheiro vivo da entidade. Se é verdade ou não, uma investigação do MP certamente esclareceria.
Ah, tem mais: em plena audiência, o traficante usado pela acusação disse que acompanhava a política desde o tempo de Parracho. Ele com 29 anos, sendo que o saudoso Parracho havia, à época, sido prefeito há 34 anos atrás.
Também fiquei sem entender quando o promotor afirmou que existem investigações feitas pelo delegado Evy contra a minha pessoa. Se as têm, que apresente-as. Não devo nada a delegado nenhum, não me envolvo em falcatruas e nem receio ser investigado seja lá por quem for. Garanto que movimentações “atípicas” não surgirão em minhas contas bancárias. Também jamais chamei o promotor de criminoso. Apenaas o denunciei porque fui acusado por algo que não cometi sem sequer ter sido ouvido, o que é um direito inalienável meu. Ora, se eu não puder recorrer de uma decisão absurda vou fazer o quê? Ficar calado até ser prejudicado irremediavelmente é que não.
Só espero que o promotor Dioneles saiba separar as coisas e respeite ao menos o meu trabalho, como estou me esforçando ao máximo para respeitar o seu. Não sou de ficar inventando histórias sem pé e nem cabeça. Eu não me chamo Ubaldino e muito menos Tarcizo Vieira para ficar de lambe-lambe com autoridades. Respeito a Justiça e nunca me furtei ou me furtarei à ela. Pelo contrário, sempre procuro ajudar e a colaborar para que se faça justiça nesta cidade. Os criminosos precisam ser punidos. Desde que os fatos me convençam.
Se Edésio foi realmente o mandante, que seja punido. Se sua movimentação financeira é atípica e fruto de fraudes contra a administração pública, que também pague pelos seus atos. Mas com provas e não com politicagens engendradas por um ex-prefeito reconhecidamente corrupto e ladrão. Ninguém pode estar acima da lei e muito menos desejar o mal para pessoas inocentes.
Espaço total
Ah, e para encerrar, quero deixar bem claro que o Dr. Dioneles sempre teve e sempre terá espaço em nosso jornal, jamais lhe sendo cerceado o direito de resposta ou de defesa, a hora e o dia que ele quiser, mesmo que eu não concorde com sua maneira de encarar o caso dos professores. Ora, este sempre foi um princípio profissional meu. Afinal, a gente joga limpo, senhor promotor.
O que eu escrevo aqui eu falo, assumo e sustendo em qualquer tribunal do júri. Dez Evy para me investigar ainda é pouco. Eu só lamento tudo isso porque fica parecendo que o jornal inventou todas as acusações sobre a uma possível farsa policial ao seu bel prazer. É exatamente isso que a rádio palanque tenta passar à população e, o que é bem pior, com o apoio total do promotor. Aí fica difícil aceitar a tudo calado. Quem bem conhece a raça do Traste e dos seus asseclas sou eu.
Outro detalhe final: também faz parte do papel do MP fiscalizar bens escondidos da Justiça e fazer com que políticos corruptos ressarçam os cofres públicos. Até agora nenhuma palha sequer, por exemplo, foi movida contra o dono da rádio palanque, apesar das fontes de renda constantemente denunciadas pelo jornal.






















